A selecção do futuro Secretário Geral do Partido Socialista vai prosseguir dentro das dicotomias seguintes:
a) a do tipo de política dos candidatos, ou seja, uma política de ideais ou uma política de conveniências;
b) a dos objectivos das candidaturas ou seja, a de chefe político do Partido, ou a de putativo 1º ministro da Nação.
A) O Tipo da política
A questãoUma política prosseguida sem ideais é uma carreira, um carreirismo.Como todas as políticas, em democracia, se justificam pelo serviço à sociedade, a condução de uma política sem ideais é não só uma imoralidade cívica, como uma mentira pública.
Desde que há uns anos, desde que o ideal do Estado Social (da economia posta ao serviço da cooperação e da solidariedade) começou a decrescer de importância e a ser substituído pelo individualismo promovido pelo neo-liberalismo (da competitividade pelo poder, fama e dinheiro, sintomas do sucesso individual), os partidos, pelo menos em Portugal, deixaram te ser movidos por ideologias, deixaram de ter metas e objectivos sociais, para passarem a ser esquemas de ascensão pessoal dos seus militantes ou simpatizantes, dentro ou à custa das cortes em que se transformaram os aparelhos e a nomenclatura partidária.
Nos chamados partidos de Poder (Bloco Central), tal sistema instalou-se e hoje é difícil de distinguir, quer nos seus princípios ideológicos, quer na sua praxis, qualquer diferença que não seja decorrente, exclusivamente, da personalidade dos respectivos chefes. É isto, políticamente, o Centro, ideologicamente cinzento, pragmático no curto prazo, demagógico, manobrador, conciliador na partilha do poder e suas prebendas. Constitui o chamado Bloco Central de Interesses. O nome diz tudo.O poder para ter e partilhar com os amigos.
À conta da passividade ou ignorância dos cidadãos Para os lideres dos partidos com essas características, deixou de haver ideais e a causa por que lutam confunde-se com os seus próprios interesses e ambições.
Ainda há, contudo, muita gente que apenas lhe interessa a política no primeiro sentido, isto é, como um dever e não como um haver, para sentir que estão a colaborar no seu país e no seu tempo, para uma sociedade melhor, na medida em que se aproxima mais do seu ideal social, da sociedade onde haja igualdade de oportunidades, onde haja liberdade de pensamento e de atitudes, onde haja solidariedade entre as pessoas, trabalhando em cooperação, onde os níveis de vida permitam a todos o tempo e as condições para um seu contínuo desenvolvimento espiritual, onde a Justiça seja célere e incorrupta, onde a verdade seja sistematicamente usada na informação pública e onde o Estado, a todos os seus níveis, esteja motivado e adequado à prestação do serviço público que lhe compete.
Uma política de ideais em vez da política de conveniências que presentemente existe.
Aí a Politica é revertida para a Sociedade, sendo a sociedade um fim e não um meio. Uma prática de generosidade, em vez do calculismo egocentrista de uma política de interesses, como a que se vem instalando.Há ainda gente política a pensar assim. Espero que muita.
A actual maioria parlamentar no poder pratica, de forma evidente, a segunda forma de política, a do jogo dos interesses. Basta ver a nomeação do Governo e perceber que os critérios que presidiram à nomeação das pessoas não foram de competência ou adequação para um serviço público nas respectivas áreas, mas de conveniências de poder, de jogos internos e cedências aos principais grupos económicos. Os idealistas, os engajados na ?causa? da social-democracia ou da democracia-cristã, foram completamente afastados, dando lugar aos populistas, gestores de interesses em torno de si próprios, e em que a os seus eventuais bons desempenhos têm por intuito não tanto o serviço à Nação, mas o reforço da sua imagem e poder. Restaram dois ou três, para disfarçar.
Os políticos não populistas ou oportunistas da Coligação que agora é maioria, estão, praticamente, agora aniquilados, na acção política.
Limitam-se a umas crónicas mais ou menos críticas nos media e a remoerem vinganças, que terão de comer muito frias, a se manter este estado de coisas.O PC e o BE funcionam, ainda, por causas e ideais, mais ou menos, mas não têm suficiente apoio de votos para a sua acção ser significativa, para além de constituírem uma espécie de grilo falante do Sistema.
Mas nem o Pinochio, nem o Zé Povo, distraído com futebois, telenovelas e intrigalhadas semelhantes, deu alguma vez ouvidos aos grilos. Depois, queixam-se, mas a vida é assim mesmo.
Com o PSD e o CDS fora de questão, vendidos aos interesses imediatos das suas chefias, o PCP e o BE sem impacte real, para alterar este estado de coisas será necessário um PS forte e diferente na sua política, um PS que combata o Bloco Central de interesses vigente e que dele se demarque.
No PS, Ferro Rodrigues prometeu mudança no Pântano interno que Guterres havia deixado (AG dixit), entendendo-se como tal um partido sem ideais sociais, organizado numa espécie de corte com os seus duques, barões e respectivas clientelas.
Ferro durante dois anos prometeu mudar, mas nada fez.Quando saiu, manteve-se pessoalmente respeitado por todos, mas ninguém lamentou a sua saída.Uns porque não concordavam com a sua política (ou ausência dela).
Outros porque pensaram que seria a oportunidade de, afectando-se a outro dos putativos príncipes que já preparavam há muito a tomada do poder, daí tirar benesses para além das eventualmente já existentes.
Começa agora o PS uma fase em que se irá definir o tipo da sua política futura: se se vai assemelhar ao populismo do Centro-Direita, assumindo um populismo de Centro-esquerda, em torno da figura do seu líder, admissivelmente Sócrates; ou se vai retornar, de alguma forma, às suas origens de partido de causas e de ideais, reformista por natureza, aberto e progressivo, admissivelmente com Alegre como Secretário Geral.
Os protagonistas:
Soares não tem hipótese. Nunca foi popular nas bases do PS e agora trata-se de uma eleição apenas pelos militantes socialistas. Sempre foi apoiado internamente apenas por um pequeno grupo de amigos e por um grupo um pouco maior de amigos da Família. Só ele pensa o contrário.A luta far-se-á entre Alegre e Sócrates, sem dúvida.
A avidez com que tantos se aproximaram de Sócrates, tido então como garantido vencedor contra Soares, marcou a sua candidatura como a do satus quo, a do chamado Aparelho, a da continuidade do Pântano.Sócrates também nunca esteve muito próximo das secções. Espera que o Aparelho e os barões regionais lhe possam garantir os votos das bases, pelo menos das arregimentadas nos respectivos sindicatos de votos (apesar do sistema de eleição secreta e universal dificultar o esquema). Em troca terá de lhes deixar o poder local e distrital sem fazer perguntas e não apoiar as oposições internas locais, quando e se protestarem.
Se a proposta de Sócrates for apenas a conquista e manutenção do poder, será um casamento duradouro, como todos os de conveniência.
Mas se Sócrates tiver também outros intuitos, por exemplo de reforma da sociedade, não lhe interessarão todos esses apoios (alguns há interessantes e sérios), que se revelam compromissos impossíveis de manter face às roturas e às purificações que será necessário fazer no Partido e na Sociedade.
Para mudar alguma coisa.Por exemplo a corrupção larvar que grassa em todo o País.Mas Sócrates aceitou e regozijou-se com estes apoios. Talvez mesmo os tenha procurado e preparado. Não se lhe conhecem ideais políticos no passado.
Não se arranjam, agora, de uma penada, nem se compram.Tudo aponta, pois, que tenha optado pela continuação do status quo, do Pântano vigente, mesmo que naturalmente afirme outra coisa.Tratar-se-á então apenas de jogo de poder. E é pena, porque Sócrates terá sido um bom ministro, um dos poucos que defendeu, na altura, as suas ideias e convicções, sectoriais é certo, mas "atravessou-se" e não se rendeu à comodidade de cedências fáceis.
Alegre é o contrário. Nunca quis o poder pelo poder, se bem que lhe não tivessem faltado oportunidades. Sempre se meteu na política à conta de ideias e de ideais e agora, segundo diz e é de acreditar, também é a consciência da desmoralização e imoralidade reinante na vida política que o leva a candidatar-se à liderança do único partido que poderá inflectir estes estado de coisas.
Isto não agrada aos barões do Aparelho e aos seus clientes mais directos.
Joga-se nesta pugna mais do que a liderança do PS. Face ao atrás referido é a própria essência da Democracia que está em jogo.No fim, em Setembro, retomar-se-á uma política de ideais, ou continuar-se-á na política de conveniências, de interesses, no jogo das influências, na corrupção, no pântano?
Quantos são, no PS, os militantes que estão na Política por carreira ou interesse pessoal e quantos por causa social?
b)O Partido ou o Governo?
..Segue no próximo post..

